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Aracaju, Sergipe, Brazil
Sou uma terapeuta ericksoniana; trabalho com Psicoterapia Breve, utilizando, sob medida para cada pessoa, técnicas de Hipnose e Arteterapia. Sou também doula: acompanho gestantes durante o pré-natal, parto e pós-parto. Qualquer dúvida e interesse, entre em contato! Terei o maior prazer em poder ajudar. :)

sábado, 4 de agosto de 2012

Aguar


Em um tempo passado, nas bandas de um pequeno interior, vivia uma menina que tinha medo de água. Não era um pavor que a fazia sair correndo, nem mesmo uma voz que a dizia para se afastar, mas uma espécie de entendimento imaginado que ela tinha do que seria se molhar. Ela não queria, isso era tudo que sabia. Passava então os dias sem se refrescar, sem saber como era fácil ficar limpa e sem tentar descobrir aquilo que na mente dela não existia. 

Foi então que num belo dia – porque todos os dias são belos, se assim permitimos – ela estava na rua desprevenida e caiu uma grande chuva no lugar. Grande não porque era muita, mas porque realizou um importante feito. A menina ficou em choque, sentia-se cortada em pedaços ao toque daquelas gotas terríveis! Era água, e eram várias; porque o que a modifica a torna plurificada. 

Sem suportar tamanha dor, sendo invisivelmente rasgada, correu de qualquer jeito, até avistar um lago em frente ao seu caminho, bem na direção exata. E num misto de desespero e inconsciente sabedoria, pulou para dar fim ao que sentia, achando que, afundando, a vida acabaria. 

Foi quando, de olhos fechados e completamente banhada, sentiu algo diferente de tudo o que já havia vivido. Estava mais leve, o que era aquilo?! Pensou estar morta... De certo alguém havia morrido. 

Após o pensamento conclusivo, seu corpo, que havia descido, começou a subir! Erguendo-se como se flutuasse... Água... O que era aquilo?! “Pensei que fosse no ar que acontecesse isso”, pensou como se falasse alto... 

A menina experimentou seu medo a tarde todinha. E quando saiu, não era só a água que havia se modificado. Sabia agora que podia sentir a si mesma de outras formas... Uma delas era com mais leveza no corpo, devido à suavidade da alma... :)

Camila Sousa de Almeida


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Vai Com Pensar Ou Não?

"Fui consertar minha câmera fotográfica que estava quebrada há um tempão (minha primeira câmera)... Na loja, vi que consertá-la não compensaria; iria sair mais caro que uma nova câmera. O cara tentou me fazer entender isso, e me mostrou outras câmeras, que apesar de usadas, estão em muito melhor estado que a minha velhinha. No fim, percebi que eu não queria só consertar a câmera, mas o que ela representava pra mim. E que eu deveria, na verdade, parar de olhar para trás e ver o que estava dado alí na minha frente (a câmera nova, no caso)... Que às vezes compensa mais se desfazer do que é "velho" para agregar coisas novas... Foi bem lógico na hora me desfazer, sabe. E eu não tinha percebido até o cara mostrar a outra câmera. Há anos eu tento consertar essa câmera... O legal foi o pensamento que tive. Saí de casa pensando: "se for uns 150 reais o conserto, eu pago e volto com minha câmera". Aí o cara me fala que vai custar no mínimo uns 200, e que por 100 eu levo outra 'nova'. A questão do desapego é muito forte mesmo. Não vale a pena se apegar ao passado, se ele não te deixa ver novas oportunidades no presente.

P.S. Sempre falavam que eu ia gastar, que ia ficar caro, mas a câmera velha ia ser consertada... Essa foi a primeira vez que me mostraram outra opção... E me dei conta de tudo isso."
Erna Barros


quinta-feira, 26 de julho de 2012

Uma fábula sobre a fábula

(Conto Árabe)

Allah Hu Akbar! Allah Hu Akbar!
Deus criou a mulher e junto com ela criou a fantasia. Foi assim que uma vez a Verdade desejou conhecer um palácio por dentro e escolheu o mais suntuoso de todos, onde vivia o grande sultão Haroun Al-Raschid. Vestiu seu corpo apenas com um véu transparente e pouco depois chegou à porta do magnífico palácio. Assim que o guarda apareceu e viu aquela mulher sem nenhuma roupa, ficou desconcertado e perguntou quem ela era. E a Verdade respondeu com firmeza:
- Eu sou a Verdade e desejo encontrar-me com seu senhor, o sultão Haroun Al-Raschid.
O guarda entrou e foi falar com o grão-vizir. Inclinando-se diante dele, disse:
- Senhor, lá fora está uma mulher pedindo para falar como nosso sultão, mas ela só traz um véu completamente transparente cobrindo seu corpo. 
- Quem é essa mulher? - perguntou o grão-vizir com viva curiosidade.
- Ela disse que se chama Verdade, senhor - respondeu o guarda.
O grão-vizir arregalou os olhos e quase gaguejou:
- O quê? A Verdade em nosso palácio? De jeito nenhum, isso eu não posso permitir. Imagine o que ia ser de mim e de todos aqui se a Verdade aparecesse diante de nós? Estaríamos todos perdidos, sem exceção. Pode mandar essa mulher embora, imediatamente.
O guarda voltou e transmitiu à Verdade a resposta do seu superior. A Verdade teve que ir embora, muito triste.
Acontece que...
Deus criou a mulher e junto com ela criou a teimosia. A Verdade não se deu por vencida e foi procurar roupas para vestir. Cobriu-se dos pés à cabeça com peles grosseiras, deixando apenas o rosto de fora e foi direto, é claro, para o palácio do sultão Haroun Al-Raschid.
Quando o chefe da guarda abriu a porta e encontrou aquela mulher tão horrivelmente vestida, perguntou seu nome e o que ela queria.
Com voz severa ela respondeu:
- Sou a Acusação e exijo uma audiência com o grande senhor desse palácio.
Lá se foi o guarda falar com o grão-vizir e, ajoelhando-se diante dele, disse:
- Senhor, uma estranha mulher envolvida em vestes malcheirosas deseja falar com nosso sultão.
- Como ela se chama? - perguntou o grão-vizir.
- O nome dela é Acusação, Excelência.
O grão-vizir começou a tremer, morto de medo:
- Nem pensar. Já imaginou o que seria de mim, de todos aqui, se a Acusação entrasse nesse palácio? Estaríamos todos perdidos, sem exceção. Mande essa mulher embora imediatamente.
Outra vez a Verdade virou as costas e se foi tristemente pelo caminho. Ainda dessa vez ela não se deu por vencida.
E isso porque...
Deus criou a mulher e junto com ela criou o capricho.
A Verdade buscou pelo mundo as vestes mais lindas que pôde encontrar: veludos e brocados, bordados com fios de todas as cores do arco-íris. Enfeitou-se com magníficos colares de pedras preciosas, aneis, brincos e pulseiras do mais fino ouro e perfumou-se com essência de rosas. Cobriu o rosto com um véu bordado de fios de seda dourados e prateados e voltou, é claro, ao palácio do sultão Haroun Al-Raschid.
Quando o chefe da guarda viu aquela mulher deslumbrante como a Lua, perguntou quem ela era.
 E ela respondeu, com voz doce e melodiosa:
- Eu sou a Fábula e gostaria muito de encontrar-me, se possível, com o sultão deste palácio.
O chefe da guarda foi correndo falar com o grão-vizir, até esqueceu-se de ajoelhar-se diante dele e foi logo dizendo:
- Senhor, está lá fora uma mulher tão linda, mas tão linda, que mais parece uma rainha. Ela deseja falar com nosso sultão.
Os olhos do grão-vizir brilharam:
- Como é que ela se chama?
- Se entendi bem, senhor, o nome dela é Fábula.
- O quê? - disse o grão-vizir completamente encantado - A Fábula quer entrar em nosso palácio? Mas que grande notícia! Para que ela seja recebida como merece, ordeno que cem escravas a esperem com presentes magníficos, flores perfumadas, danças e músicas festivas.
As portas do grande palácio de Bagdá se abriram graciosamente e por elas finalmente a bela andarilha foi convidada a passar.
Foi desse modo que a Verdade, vestida de Fábula, conseguiu conhecer um grande palácio e encontrar com Haroun Al-Raschid, o mais fabuloso sultão de todos os tempos.

Retirado do livro "O violino cigano e outros contos de mulheres sábias", de Regina Machado.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Conta gotas




Quando a chuva cai não se pode esperar. Ninguém mexe com ela; se a posição das gotas muda, ela é dona de si. Faz barulhinhos estranhos só pra dizer que ela é ela mesma, nem raio e nem trovão. Qualquer coisa é outra coisa, não chuva. Chover é alto, é falta de proibição. Ninguém se atreve a escolher o dia nem reclama da hora, a chuva que vira notícia! No jornal, aparece mais que polícia; ela que, amostrada, se mostra toda sem pudor. Não podemos evitar que morra. Chuva chove. É uma existência definida pela hora que para e ainda molha. Deixa silenciar... Mas a água não tem culpa. Ela não é, mas quer ser chuva.

Camila Sousa de Almeida

domingo, 15 de julho de 2012

Soluçando



Nenhum peixe morde a isca se não estiver com fome; é preciso haver alguma necessidade para poder oferecer uma armadilha com aparência de solução para ela. Assim é na sociedade capitalista; criam em nós pseudo-necessidades para iludir-nos com uma suposta “satisfação” por meio de soluções consumistas. E como se criam pseudo-necessidades? 

Impedindo as pessoas de terem suas reais necessidades satisfeitas, aquelas que naturalmente produzem bem-estar e equilíbrio; fazendo-as acreditar que não têm dentro de si aqueles aspectos subjetivos que as fazem se sentir dignas, capazes e completas, portanto terão que procurar tudo do lado de fora; direta e indiretamente, convencendo-as de que a vida é uma guerra pela sobrevivência e um teatro de aparências, separando-as assim de seus semelhantes, acusando-os de serem diferentes... Diante de tudo isso, elas se sentirão sozinhas, em meio a pessimistas previsões e visões de vida... 

Um sistema como esse vai tirando da gente a espontaneidade da fome, do sono, da sexualidade, dos afetos, dos sonhos... Limitando, quando determina o que você deve querer e fazer para estar nos padrões e ser considerado bom, certo, bonito, bem-sucedido e apreciável. 

Todas essas idéias foram construídas, assim como nossos hábitos diários; criados e facilitados pela repetição. Mas antes da construção do que estamos habituados e da criação dos desejos padronizados, a hora de comer qualquer ser humano já sabe: quando sente fome; a hora de dormir e acordar o próprio corpo, em harmonia com a natureza, sinaliza; a sexualidade se manifesta espontaneamente e o sexo é naturalmente prazeroso; as pessoas amam-se umas às outras, apreciam as coisas e os lugares de um jeito que nem precisa de explicação... 

Às vezes o problema é a solução.

Camila Sousa de Almeida  

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Ainda bem

 
Ainda bem que sempre existe outro dia. 
E outros sonhos. 
E outros risos. 
E outras pessoas. 
E outras coisas.

Clarice Lispector



segunda-feira, 9 de julho de 2012

Imaginando coisas

 
Um homem queria pendurar um quadro. Já tinha o prego, só faltava o martelo. O vizinho tinha um martelo, e o nosso homem resolveu pedi-lo emprestado. Mas ficou com a dúvida: “E se o vizinho não me quiser emprestar o martelo? Ontem ele cumprimentou-me de forma muito seca. Talvez estivesse com pressa. Mas isso devia ser só uma desculpa. Ele deve ter alguma coisa contra mim. Mas porquê? Eu não fiz nada! Ele deve estar imaginando coisas. Se alguém me pedisse emprestada alguma ferramenta minha eu emprestaria imediatamente. Porque será que ele não me quer emprestar o martelo? Como é que alguém pode recusar um simples favor desses a um semelhante? Gente dessa laia só complica a nossa vida. De certeza que, ele imagina que eu dependo dele só porque ele tem um martelo. Mas, já chega!” E correu até ao apartamento do vizinho, tocou à campainha, o vizinho abriu a porta. Mas antes que pudesse dizer "Bom Dia", o nosso homem berrou: "Pode ficar com o seu martelo, seu imbecil!" 
Paul Watzlawick
 

 

Guarda-chuva


sábado, 7 de julho de 2012

O caderno

Encontramos o equilíbrio quando nos permitimos balançar entre os diferentes lados sem precisar permanecer em nenhum deles... A passagem por cada um contribui e cabe a você escolher por onde caminhar, descobrir onde fica o seu próprio eixo... 

Independente da sua crença ou descrença no que quer que seja, ouvir os outros sempre pode lhe acrescentar algo, concordando ou não com ele. Você pode, do que ouve, lê e vê, aproveitar aquilo que faz sentido para você. Afinal, ninguém é tão grande que não possa aprender, nem tão pequeno que não possa ensinar, como sabiamente dizem...

Camila Sousa de Almeida

Segue agora uma mensagem que achei muito interessante, do Padre Fábio de Melo:

Eu não sei se você se recorda do seu primeiro caderno, eu me recordo do meu. 
Com ele eu aprendi muita coisa, foi nele que eu descobri que a experiência dos erros
Ela é tão importante quanto às experiências dos acertos 
Porque vistos de um jeito certo, os erros,  
Eles nos preparam para nossas vitórias e conquistas futuras 
Porque não há aprendizado na vida que não passe pelas experiências dos erros

O caderno é uma metáfora da vida, 

Quando os erros cometidos eram demais, eu me recordo,  
Que a nossa professora nos sugeria que a gente virasse a página. 
Era um jeito interessante de descobrir a graça que há nos recomeços.
Ao virar a página, os erros cometidos deixavam de nos incomodar e a partir deles,  

A gente seguia um pouco mais crescido.

O caderno nos ensina que erros não precisam ser fontes de castigos.  

Erros podem ser fontes de virtudes! 
Na vida é a mesma coisa, o erro tem que estar à serviço do aprendizado;  
Ele não tem que ser fonte de culpas e vergonhas. 
Nenhum ser humano pode ser verdadeiramente grande sem que seja capaz de reconhecer os erros que cometeu na vida.

Uma coisa é a gente se arrepender do que fez! 

Outra coisa é a gente se sentir culpado.  
Culpas nos paralisam. 
Arrependimentos não!
 Eles nos lançam pra frente, nos ajudam a corrigir os erros cometidos. 

Deus é semelhante ao caderno.  

Ele nos permite os erros pra que a gente aprenda a fazer do jeito certo.
Você tem errado muito? 

Não importa, aceite de Deus essa nova página de vida que tem nome de hoje! 
Recorde-se das lições do seu primeiro caderno. 
Quando os erros são demais, vire a página!

Tu Tens um Medo

Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno. 

Cecília Meireles


quarta-feira, 4 de julho de 2012

Insanamente sã


 
As vozes que ouvia pareciam mentiras catadas do chão. As paredes não falavam, ela se repetia. Mas as partes do corpo separadas tinham vida e verdade, e não pouca razão. Analisar não a faria se sentir certa. Negar não a tornaria mais gente. Que importavam os comentários alheios em torno? Que importavam os que se incomodavam com sua passagem, se ela era também mais uma passageira? Denominava-se louca, qualquer certidão não valia nada, não lhe daria nenhum direito. Uma anti-sociedade que não aceitava a fera e sua beleza, não merecia também o seu respeito... Delirava ela com certeza. 
 
Camila Sousa de Almeida



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