Minha foto
Aracaju, Sergipe, Brazil
Sou uma terapeuta ericksoniana; trabalho com Psicoterapia Breve, utilizando, sob medida para cada pessoa, técnicas de Hipnose e Arteterapia. Sou também doula: acompanho gestantes durante o pré-natal, parto e pós-parto. Qualquer dúvida e interesse, entre em contato! Terei o maior prazer em poder ajudar. :)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Uma voz muda


Conheço uma pessoa que não desliga mais a rádio na hora da “Voz do Brasil”. À princípio isto pode aparentar não ter nenhum grande significado, mas pra ela é claro: é só mais um efeito do fato de que não se sente mais inferior aos outros.  Por se achar burra demais, ou insuficientemente inteligente, antigamente não participava de conversas sobre política, com a desculpa clássica (do motivo verdadeiro de alguns) de que não gostava.

Hoje é militante de suas verdades e apesar de não entender ainda muita coisa, não tem mais medo de aprender. Ou de mostrar que precisa aprender, que está aprendendo...

Não rir de piadas sem graça das quais discordava, mas ria, é mais uma de suas coragens exercitadas hoje no dia-a-dia, nesse mundo de gente que maquia o medo de suas próprias fraquezas tentando ridicularizar o outro.

Ela era mais uma na massa, dominada pelos outros por deixar dominar dentro de si o medo. Grandes mudanças são feitas por partes. É assim que, trabalhando individualmente, a Psicologia pode modificar aquilo que é capaz de modificar a sociedade: os indivíduos.  

Camila Sousa de Almeida


sábado, 19 de janeiro de 2013

O que dá pra prever pelas prévias


Esses dias está acontecendo uma prévia carnavalesca na cidade onde moro atualmente; é um evento comum no Brasil aqui pelas bandas do Nordeste, onde tocam cantores(as) e bandas em trios elétricos. O povo participa acompanhando pela avenida dentro dos blocos, ou do lado de fora (a “pipoca”), ou assistindo dos camarotes.

E nisso, uma amiga está recebendo um estrangeiro que pouco sabe do nosso país/estado nessas poucas semanas em que está morando aqui. Assistindo o tal evento acima citado, o homem ficou espantado com as “danças típicas”, que não são normais no lugar de onde ele veio, nem mesmo nas outras partes do mundo por onde já passou. Ficou meio confuso diante da sensualidade explícita e questionou o que ele pode ou não fazer, e a partir de que idade certas coisas são permitidas por aqui. Eu fico imaginando o que ele viu... E quão jovens eram as meninas que ele viu se comportando do jeito que ele viu...

Bem, a palavra cultura vem do latim colere, que significa cultivar, portanto esta varia dependendo do que é cultivado em cada época e lugar. Essa variedade cultural ao redor do mundo e através do tempo nos traz a idéia de que somos livres, já que, comprovadamente, há muitas possibilidades. Mas há que se reconhecer também que a liberdade não existe para a colheita: o que se planta, é o que se colhe.

Podemos perceber que nas últimas décadas o sexo foi sendo banalizado e supervalorizado nas músicas mais populares, principalmente de uma forma depreciativa em relação às mulheres. E tudo isso de um jeito tão sutil, em paradoxo às letras e danças explícitas, que as próprias mulheres depreciadas não se sentem ofendidas, aplaudindo e participando ativamente da disseminação de tais “valores”.

E isso não se restringe à classes sociais nem estilos musicais específicos; nem mesmo à temática sexual, mas em tantas outras que vão criando, nas mentes dos ouvidos que ouvem, colheitas venenosas que provocam um adoecimento social. Sem analisar o significado do que ouvem, cantam e dançam, as pessoas estão cultivando, muitas vezes sem consciência: preconceito, discriminação, competitividade, baixa auto estima, possessividade, dependência emocional, egoísmo, e por aí vai...

Dia desses ouvi na rádio uma música de um cantor, nacionalmente conhecido e valorizado, com letra absurda:

Mulher preguiçosa, mulher tão dengosa, mulher

Você não passa de uma mulher (ah, mulher)
Mulher tão bacana e cheia de grana, mulher
Você não passa de uma mulher (ah, mulher)
Você não passa de uma mulher (ah, mulher)
Você não passa de uma mulher
Olha que moça bonita,
Olhando pra moça mimosa e faceira,
Olhar dispersivo, anquinhas maneiras,
Um prato feitinho pra garfo e colher
Eu lhe entendo, menina,
Buscando o carinho de um modo qualquer
Porém lhe afirmo, que apesar de tudo,
Você não passa de uma mulher (ah, mulher)
Você não passa de uma mulher
Olha a moça inteligente,
Que tem no batente o trabalho mental
QI elevado e pós-graduada
Psicanalizada, intelectual
Vive à procura de um mito,
Pois não se adapta a um tipo qualquer
Já fiz seu retrato, apesar do estudo,
Você não passa de uma mulher (viu, mulher?)
Você não passa de uma mulher (ah, mulher)
Menina-moça também é mulher (ah, mulher)
Pra ficar comigo tem que ser mulher (tem, mulher)
Fazer meu almoço e também meu café (só mulher)
Não há nada melhor do que uma mulher (tem, mulher?)
Você não passa de uma mulher (ah, mulher)


Martinho da Vila

E o que é mais interessante: no backing vocal, mulheres estavam cantando isso junto com ele! E outro dia, mais uma vez na rádio, escutei o trecho de uma “música” que dizia mais ou menos assim: “no peito, no peito, no peito, no peito... e quem não tem peito, não se desiluda, vai na bunda, na bunda, na bunda, na bunda...”. Mas, acreditem, o pior ainda estava por vir: ao acabar de tocar a “música”, o radialista comenta “e quem não tem nem peito nem bunda? Melhor nem sair, fica em casa mesmo!”, e caiu na gargalhada. Eu fiquei um tempo pensando se realmente tinha escutado tudo aquilo... Mais triste é pensar nas mentes, principalmente aquelas na fase mais intensa de corpo em formação, ouvindo isso...

Todo mundo sabe, pela prática, que a repetição fortalece. Mas nem todo mundo sabe (ou percebe que sabe) que ouvir algo repetidamente, mesmo que seja por puro entretenimento ou até contra a sua vontade, fortalece aquele conteúdo dentro de você. E o que está dentro, pode ficar inconsciente; mas o inconsciente influencia você diariamente, mesmo que você não perceba.   

Se é melhor prevenir do que remediar, penso que nós, profissionais de Psicologia, temos que trabalhar muito mais pela conscientização social, pois não somos suficientes para recuperar tamanho estrago desse cultivo atual. E paralelamente, cultivemos outras sementes!

Camila Sousa de Almeida


domingo, 13 de janeiro de 2013

Metáforas: uma loja de presentes




Metáfora vem do grego metaphorá, que significa meta (“além”) mais phorein (“transportar de um lugar para outro”). A metáfora é mais conhecida como uma figura de linguagem através da qual descrevemos uma coisa em termos de outra, como na famosa frase de Shakespeare em Romeu e Julieta: “Julieta é o sol”. A metáfora está intensamente, embora imperceptível, presente em tudo, desde a economia e a propaganda até a política e os negócios, na ciência e na Psicologia, ou seja, vivemos em um mundo repleto de símbolos e linguagem metafórica.

Uma parte interessante do poder transformador da metáfora é sua presença nas fábulas, parábolas e histórias infantis de todo mundo. Dessa forma, ao contar para as crianças uma metáfora, estamos criando, através de suas próprias representações internas, uma semente de mudança, onde os recursos admirados dos personagens e heróis, como coragem, força, determinação, paciência, entre outros, podem favorecer em muito o processo de a criança lidar com o medo, a timidez, a frustração e a superação de obstáculos no desenvolvimento infantil. Assim, podemos dizer que quando contamos uma metáfora para nossos filhos e eles ficam focados e absorvidos pelo encanto da história, estamos sendo ótimos hipnotistas.

As brincadeiras, os jogos, os desenhos e várias outras atividades infantis e de adolescentes funcionam como metáforas que facilitam o processo de mudança e aprendizagem. Uma verdadeira loja de presentes para o inconsciente e o processo hipnótico.

domingo, 23 de dezembro de 2012

No ponto da calçada





Uma mulher passa e tropeça numa pedra. 


Sem parar, olha pra trás chateada com ela. 

Continua o caminho. 

A mulher que vem atrás também olha mas, diferentemente, tira a pedra da passagem. 


Topou com a pedra sem levar topada, e ainda garantiu que ninguém mais tropeçasse, por aquele motivo, naquela calçada. 

Ambas calçadas...

Camila Sousa de Almeida




segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Conte mais


Certa vez, uma professora me ensinou que em alguns lugares, onde quase ninguém sabia ler, não existiam histórias escritas, textos tais quais conhecemos como sendo literatura, hoje. Em alguns países da África, por exemplo, existiu algo antes dos textos escritos, que eram os chamados contos populares. Acredito que, em muitos outros lugares existiu algo pa
recido. Esses contos eram histórias contadas pela pessoa mais velha da tribo ou do grupo, que era muito respeitada e reconhecida como a mais sábia por causa de seus cabelos brancos. Os contos eram sobre coisas que os mais velhos diziam ter presenciado, e sempre tinha uma lição, uma moral a se pregada. Através desses contos, eram passados os valores, de pai para filho, de geração para geração. Nas tribos africanas, em que as pessoas acreditavam muito na necessidade da harmonia do homem com a natureza, muitas histórias eram justamente sobre isso e sempre que alguém quebrasse essa harmonia, algo de ruim acontecia, vindo da própria natureza.

Independente da cultura, dos modos de ver o mundo, das crenças, temos de convir que "contar" é um método de educação muito eficaz. Estamos falando de um povo que não tinha estudo, ainda não tinha a tal “educação dos brancos", nem nada parecido e desde sempre teve a cultura de ensinar os seus filhos a importância da natureza, da honestidade, do respeito e amor ao próximo, mesmo que esse próximo seja uma árvore, um animal.


Além de transmitir valores de pai para filho, o ato de contar histórias tem outros benefícios, entre eles, despertar a imaginação e a criatividade. E, como disse certa vez o educador Jean Piaget "o principal objetivo da educação é criar pessoas capazes de fazer coisas novas e não simplesmente repetir o que as outras gerações fizeram." Ou seja, contando histórias, você educa, conduzindo a pessoa à reflexão.


Hoje, não temos o hábito de nos reunirmos com nossos familiares, tão pouco com pessoas de nosso bairro para contar-lhes histórias com uma intenção pedagógica. Até porque isso não é de nossa cultura. Entretanto, podemos deixar nosso legado sim e ensinar os nossos filhos à nossa maneira. Contar história deveria entrar novamente nos nossos planos, por ser um recurso tão produtivo, principalmente se tratando de crianças. Então, porque não contar mais?!

Mariana Motta

domingo, 16 de dezembro de 2012

Sabichões e sabichonas


Eles moravam na beira da estrada. Por um lado, pois do outro era mata. Ela não era fechada: todos os dias as crianças entravam adentro para se divertir e colher alimentos. Diziam brincar de “se perfumar por dentro”, “colorir o sangue de vermelho” e “lavar a roupa do avesso”. Pisando na terra, pegando sol, lua e chuva, correndo com bicho e subindo em árvore; era assim a escola deles, pois ninguém ali estudava, mas todo mundo aprendia. A vida era simples demais pra qualquer um querer complicá-la.

Mas as coisas do mundo não são como as coisas da natureza: o humano é capaz até de perder a humanidade. Um grupo desses, que se dizia ser o que não era, derrubou todas as casas da região, mesmo sem ter ido lá. Quem ali vivia teve que se mudar: não fazia diferença ser gente, bicho ou planta.

Mas ainda bem, nem tudo muda... As crianças crescidas, mesmo sem saber nem a própria idade, eram muito sabidas! Foram viver em outra margem, agora na cidade. E lá começaram a chamar os outros pra brincar aquelas brincadeiras que, apesar da escolaridade, quase ninguém lá tinha aprendido. Impressionaram-se eles com a ignorância dos ditos sabidos, mas justamente por isso tinham muito que ensinar.

A brincadeira foi ficando séria quando os fracos foram se fortalecendo; os ansiosos se tornando calmos e os medrosos aprendendo a se enraizar... Todo mundo queria entender o poder por trás da simplicidade da bebida colorida que misturava água com flores; de respirar fundo sem calçar sapato; de beber água natural o tempo todo; de comer fechando o olho; de deixar a chuva molhar a cabeça, o corpo, e ainda dançar!

Ainda sem entender o povo já gostava, porque, além de tudo, ninguém gastava nada além de energia pra se perfumar por dentro... Nem precisava de tinta pra pintar o sangue, já vermelho... E, com prazer, descobria a própria pele como uma roupa feita sob medida... Fazendo bobagens, estavam deixando de ser bobos. Crianças crescidas, mas como frutas colhidas antes do tempo, só agora amadurecendo. Descobrindo-se parte da natureza... Que sustenta a si mesma...

Camila Sousa de Almeida


sábado, 15 de dezembro de 2012

Entre


No mistério do sem-fim 
equilibra-se um planeta. 

E, no planeta, um jardim, 
e, no jardim, um canteiro; 
no canteiro uma violeta, 
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim, 
a asa de uma borboleta


Cecília Meireles


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

ObservAções

Trabalho numa clínica muito aconchegante, com um ambiente que mistura agradavelmente seres humanos, animais, vegetais e minerais. É interessante observar como algumas pessoas chegam até aqui e apenas aguardam sua vez, ou apenas olham de longe as diferentes partes do ambiente, sem se aproximar. Podemos observar, durante o processo de terapia, as pessoas começarem a explorar o espaço disponível... e, gradativamente (ou não), aprendendo a aproveitar mais as possibilidades oferecidas aqui e agora...
Observei isso acontecer com um cliente, que costumava esperar a hora sentado no sofá, do lado de dentro... Um dia, esteve a admirar o jardim; as plantas nas suas diversas formas e cores, o modo que as mesmas estavam presentes... Ele observava e respirava aquele ambiente à frente.
De repente, ouviu um miado bem distante, aparentemente. Não tinha a percepção de que o som que ouvia se tornava mais próximo ainda. Pensou, no início, que o gato estava longe, na porta de entrada da clínica, quando o animal passou por ele. Achou que o miado vinha da rua, mas para sua surpresa, o gato passou a miar próximo do despreocupado ouvinte. Ao notar que o felino não estava tão distante quanto pensava, alegrou-se! Refletiu como a percepção física humana pode se enganar...
Enquanto o gato “caminhava” lentamente, fechando os olhos, com um miado tranqüilo, ele foi percebendo a ondulação... A coloração dos pêlos alaranjados e, aparentemente, macios... Com traços fortes, grossos, de laranja no corpo e, em sua maioria, pelagem clara... Um degradê de laranja – indo da cor mais clara para mais escura...
O simpático bichinho subia os degraus de uma pequena escada do quintal, onde se encontrava um jardim. Lentamente, com serenidade, expressados pelos miados e olhar um tanto sonolento, como de um bichinho que acabara de acordar... Pisando firme e tranqüilo, como quem valoriza cada patada dada...
Miando, abrindo e fechando os olhos num modo natural de ser e agir, foi de encontro a uma plantinha e decidiu comer suas folhas. Um gato, um animal carnívoro, comendo uma planta... Algo interessante de ver...
A tranquilidade e os miados do felino eram como o ar que respiramos, naturais com a harmonia da natureza... O gatinho, a vegetação e o observador estavam todos inclusos, em equilíbrio com o jardim... Tudo podia ser e estar na beleza daquele universo.
Entretanto, o simpático gato não estava satisfeito com as folhas que comera. Decidiu se alimentar de um vegetal maior, e deste quis arrancar o caule. Tentou uma, duas, três e mais vezes... Pois bem, a planta ficou inteira, mas toda babada. A baba do gato, gosmenta e pegajosa, escorria sobre toda a planta, calma e lentamente, como o modo o dono... Um gato “babão” e faminto por plantas; foi o primeiro que ele pôde ver.
Após isso foi percebendo a aparência do bichano: um leão ou tigre, num porte menor, com algumas similaridades... À primeira vista, ele lembrara um pequeno leão, devido ao focinho e outros detalhes... Um corpo de tigre, com a liderança de um de leão... Mas nada carnívoro o destemido gato. Veio então à sua mente um desenho animado, os Thundercats, que eram gatos com forma humana, personificados. Era visível o quanto o sereno miador tinha “traços” daqueles animais.
Naquele instante um pássaro pousou num galho alguns centímetros acima do gato. Ficou um tempinho olhando o local... Achou que, de tanto olhar, percebeu o miador e voou para um muro alto do jardim, longe de qualquer investida do gato. Que continuou no jardim, agora sem miar...

Camila Sousa de Almeida e J.A.G.


Related Posts with Thumbnails