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Aracaju, Sergipe, Brazil
Sou uma terapeuta ericksoniana; trabalho com Psicoterapia Breve, utilizando, sob medida para cada pessoa, técnicas de Hipnose e Arteterapia. Sou também doula: acompanho gestantes durante o pré-natal, parto e pós-parto. Qualquer dúvida e interesse, entre em contato! Terei o maior prazer em poder ajudar. :)
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sábado, 6 de dezembro de 2014

O método de Lou



Lou era uma menina feliz. Tanto, que vivia tomando liberdade com as pessoas que mal conhecia. Brincava sozinha, ria de si e se fazia perguntas que realmente respondia...

Adolescente, filosofava na fila do pão, com quem estivesse ali presente. Abraçava de verdade e agradecia qualquer coisa... Até mesmo um tropeção. Porque ajudava a enxergar o caminho de outro jeito, dizia. 

Lou tirava tempo para não fazer nada e levava isso muito a sério. Tinha a língua solta, e o corpo apto para dançar a qualquer momento! Não ligava quando só havia música dentro da sua cabeça... 

Se lhe pediam uma mão, ela dava duas, de corpo e alma! E quando lhe olhavam torto na rua, um poema ousado recitava. Usava azul com laranja e listras com bolinhas, mas nunca pintou os cabelos...

Lou cresceu e apareceu mais ainda. Grande, pôde testemunhar a ciência aprendendo com os artistas. Na velhice se tornou a maior novidade: foi chamada para dar uma palestra, sobre o seu infalível método de tratamento para diversos tipos de sofrimentos, intitulado “Lou Cura”.

Camila Sousa de Almeida


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A história do porquê



Numa cidade de pássaros e frutas certa vez foi construída uma praça: local sempre procurado pelos casais, onde as crianças brincam e gritam e onde nascem lindas flores. Um local criado para ser belo e colorido, onde as pessoas iam, vinham e riam. 

Mas as cidades são pedaços de coisas maiores. E, quando as coisas são grandes, nem sempre sabemos o porque delas serem como são... Chegaram os tempos de guerra e tudo ficou diferente. A praça então passou a ser palco de um espetáculo de horror, onde a crueldade humana podia ser diariamente assistida. Por isso, da praça agora se corria. Todo mundo queria ir para casa. Mas não era todo mundo que conseguia...

Vitória era uma mulher simples que gostava muito de flores e árvores. Tinha saído de um lugar pequeno para viver na cidade e ouviu dizer antes de ir que a praça era a melhor parte, pois lembrava a beleza do seu interior. 

Vitória chegou empolgada, mesmo sem conhecer ninguém, mas acabou chegando em época de guerra e deparou-se com ameaças de violência em plena praça. “Isso não tem nada a ver com meu interior”, pensou. Mas ela havia saído de lá justamente porque queria uma experiência nova; conhecer pessoas, contribuir com a cidade, aprender novidades e desenvolver suas velhas habilidades. Resolveu ficar por ali e buscar sobreviver em meio a tudo aquilo que agora fazia parte da sua realidade. 

Descobriu, por causa dessa persistência, que os dias não eram todos iguais... as pessoas também não agiam todas iguais... e que, superando todas as intempéries do ambiente, as flores continuavam nascendo e crescendo na praça... As pequenininhas, as maiores, as claras, as escuras... Em meio às árvores, que também resistiam bravamente aos tiros que levavam... 

Mas isso começou a mudar, pois a praça começou a ficar doente. Murchando, secando, sem dar bons frutos. Então Vitória passou a freqüentar a praça com assiduidade, apesar dos pesares, a praça continuava sendo uma praça: local onde se nasciam as flores da cidade. Vitória se arriscava, e além disso via coisas desagradáveis nesse caminho: corpos ensangüentados, gritos de dor, choros desesperados. Sofrimentos de seres humanos provocados por outros seres desumanizados.

E o que ela ia fazer lá na praça? Obviamente, cuidar da terra, regar as plantas, proteger as árvores. Todo mundo havia se afastado de lá, a natureza estava abandonada. Alguém precisava ter esse cuidado... Certa vez uma pessoa, de dentro de uma janela, que sempre via quando ela passava, perguntou a Vitória por que ela se arriscava e suportava tudo isso por nada. E Vitória disse que, se a pessoa fosse lá com ela, ela mostrava. 

A pessoa não quis ir ver, estava muito amedrontada, mas Vitória ficou com a pergunta em sua mente e ao chegar na praça respondeu sozinha: “Por nada???? Se ela visse com meus olhos, ela veria que as flores que antes murchavam agora estão perfumando meu caminho... que as árvores que haviam secado agora estão cheias de folhas, me doando ar puro e abrandando o calor dos meus dias... que os bichos que haviam perdido bruscamente suas casas agora tiveram de volta um lar, um ninho... e, por isso, ganhei muitos amigos...”

E a cada planta e árvore que floria na terra, fertilizada com carinho por Vitória, a cidade ficava menos cinza. O choro até continuava, mas a vida teve Vitória na praça...

Camila Sousa de Almeida



quarta-feira, 9 de julho de 2014

O segredo da felicidade

Há uma fábula maravilhosa sobre uma menina órfã que não tinha nem família nem ninguém para amá-la.

Certo dia, sentindo-se excepcionalmente triste e sozinha, ela foi passear por um prado e viu uma pequena borboleta presa num arbusto de espinhos. Quanto mais a borboleta lutava para se libertar, mais os espinhos cortavam suas asas frágeis. A menina órfã libertou cuidadosamente a borboleta de sua prisão de espinhos. Em vez de voar para longe, a pequena borboleta transformou-se numa bonita fada. A menina esfregou os olhos, sem acreditar.

- Por sua maravilhosa gentileza – disse a boa fada à menina -, vou realizar qualquer desejo que você escolher.

A menina pensou um pouco e depois respondeu:
- Eu quero ser feliz!

A fada disse:
- Muito bem – e, inclinando-se na direção dela, sussurrou alguma coisa no seu ouvido. Em seguida, a fada desapareceu.

Enquanto a menina crescia, não havia ninguém na região tão feliz quanto ela. Todos lhe perguntavam o segredo da sua felicidade. Ela apenas sorria e respondia:
- O segredo da minha felicidade é que ouvi o que uma boa fada me disse quando eu era menina.

Quando estava bem velhinha, em seu leito de morte, todos os vizinhos se reuniram à sua volta, com medo de que o maravilhoso segredo morresse com ela.
- Conte, por favor – imploraram eles. – Conte o que a boa fada disse.

A adorável velhinha simplesmente sorriu e respondeu:
- Ela me disse que todo mundo, por mais seguro que pareça, quer seja velho ou novo, rico ou pobre, precisa de mim.
 


The Speaker’s Sourcebook  
Histórias para Aquecer o Coração dos Adolescentes
Jack Canfield, Mark Victor Hansen e Kimberly Kirberger

domingo, 2 de março de 2014

A menina e o pássaro encantado

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
Tenho de ir dizia.
Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
Eu também terei saudades dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
Que bom pensava ela o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

As mais belas histórias de Rubem Alves
Lisboa, Edições Asa, 2003

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Esperando ter razão

Um garoto chega da escola temendo ter de encarar o dever de casa. E repete: "Meu dever de casa vai ser difícil. Não vou conseguir fazer."
A mãe pergunta: "Como você pode saber se ainda nem começou?"
O menino explica que quando a professora passou o dever, ela alertou a turma: "Não esperem para fazer o dever de casa no domingo. Façam no sábado. É uma tarefa difícil e a última turma não se saiu muito bem. Então se planejem para dedicar um bom tempo e trabalhar duro, pois será necessário."
A mãe do garoto imediatamente compreendeu que a professora havia influenciado seu filho de uma forma negativa, levando-o a esperar ter dificuldades para realizar o dever de casa.
Ela também compreendeu que provavelmente o dever não era tão difícil quanto o filho imaginava e que poderia facilmente influenciá-lo a mudar suas expectativas e torná-las mais positivas. Ela disse ao menino: "Para mim você vai resolver essa tarefa com muita facilidade. Você é bom em assimilar novas informações e em lembrar o que aprendeu. Meu palpite é que logo, logo você vai ter terminado o dever e vai aparecer aqui dizendo que foi facílimo."
É claro que o garoto abriu o maior sorriso e foi começar o dever de casa. Pouco tempo depois, voltou radiante. "Puxa", disse ele "você tinha razão, mãe. Da próxima vez que alguém tentar me convencer que não posso fazer algo, vou lembrar-me do que você disse sobre a minha capacidade de assimilar novas informações e vou dizer a mim mesmo que você tinha razão."

Autor desconhecido




quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Dai-me o teu amor, que já é meu



Era um encontro transcendental entres as partes que os levavam a eles mesmos. Haviam se fundido e se cindido logo que se deu a invenção de seus corpos, por isso os desencontros passaram a acontecer frequentemente, apesar de tão próximos.

Nada mais seria da mesma forma, intacto apenas o conteúdo. Riam juntos, choravam juntos, iam embora supostamente se separando mas, fatalmente unidos, sempre voltavam de onde tinham parado como se o tempo não tivesse existido. Explicação nenhuma isso requer. O fato é que era consenso o com-sentimento entre as partes. Mas era difícil porque juntava o não saber como fazer com o sem conseguir provar...

Nasceram, cresceram, encontraram outros, trocaram o carinho pelo carinho dos outros e depois trocaram e foram trocados por outros. Entre eles mesmos não trocaram beijos, não tocaram os corpos, mas o coração batia mais forte do que o mais forte que já havia batido... Um bater sem dor, mas que doía... Ardia, mesmo sem arder...

Ele até chegou a correr atrás, sem correr... Ela, sem saber, sabia... Tão estranho era aquela intimidade toda, que não se encontrava em nome algum. Só no dicionário celestial dos que verdadeiramente amam. Porque pra amar não precisa de contrato nem de falta de medo. Sendo assim, estavam livres. Para amarem-se e aceitarem-se na saúde e na doença; na riqueza e na pobreza; até que a morte os una completamente... Ou a vida não espere pela morte.


Camila Sousa de Almeida

sábado, 2 de novembro de 2013

Os bichinhos

Marília tinha nascido no meio dos bichos. Convivia com gato, cachorro, papagaio, periquito. E quanto mais andava pelo seu quintal infinito, mais encontrava outros amigos: os voadores, os saltitantes, os nadadores... Todos absolutamente livres. As espécies conviviam numa harmonia que, para Marília, era tão natural quanto ela.

Quando foi viver na selva de pedra, estranhou muita coisa: água engarrafada e lacrada, fruta pegada de prateleira, cachorro vendido em loja, o povo correndo da chuva, e não com ela... Era tanta coisa diferente que ela nem sabia como chamar.

Já o povo sabia chamar Marília de muita coisa. Mas quando diziam que ela era um bicho-do-mato, ela sorria saudosa. Quando riam dos seus pés descalços, ela pensava que devia ser aquilo uma pessoa chamada de invejosa. Toda aquela malícia dos homens das pedras só a pureza da mata conseguia matar.

E como uma floresta que se multiplica pelas sementes que caem na terra, a fértil Marília pegou-se a engravidar. Gestando em seu ventre uma nova existência cor de verde-esperança, ela naturalmente deu à luz em meio às águas limpas que ainda restavam naquele lugar.

Não tardou a tentarem mais uma vez desmatar seu peito: “seu filho parece um macaco!”. Marília, sábia como as folhas de uma árvore que transformam o que vem de fora em algo que lhe é útil, ficou muito alegre com um comentário tão divino! Serena e orgulhosa, ficou lembrando do quanto admirava aqueles bichos...

Camila Sousa de Almeida


terça-feira, 29 de outubro de 2013

E eles viveram felizes para sempre

E eles viveram felizes para sempre. Seja lá quando isso for. Assim acaba essa história. Porque tudo o que começa acaba. Murilo teve sua primeira visão quando nasceu: vislumbrou sua morte, de infarto, debruçado numa janela. Abriu o berreiro. E nunca se esqueceu dessa visão, estranhamente.

Mais tarde, na infância, os filmes o entediavam: nos créditos iniciais já sabia que o casal viveria feliz para sempre. Os filmes de comédia não tinham mais graça e os de suspense não davam susto. Desistiu de assistir "Lost" no primeiro capítulo.

Tornou-se um sujeito tímido, introvertido. Bastava que fizesse um novo amigo para que antevisse o momento em que eles romperiam ou a morte de um dos dois. Beber era difícil. No primeiro gole, visualizava a ressaca.

Um dia, apaixonou-se à primeira vista. Foi travar uma conversa. Imediatamente a viu horrenda, assinando os papéis do divórcio. E isso aconteceu repetidas vezes: viu uma dando um tiro no peito, outra comprando passagens de ônibus só de ida para Friburgo. Murilo foi, pouco a pouco, se afastando da companhia das pessoas, para não ter que começar nada que tivesse que acabar. E viveu um tempo longo em que nada começou.

Até que a visão de sua morte, tão jovem, começou a assombrá-lo. Podia acontecer a qualquer momento. Murilo se olhou no espelho e viu que ele estava se transformando no homem da sua visão: tinha engordado um pouco. Perdeu cabelo.

Não demorou muito para que ele percebesse que era melhor viver as coisas sabendo do final delas do que não viver nada. E redescobriu o prazer de viver o miolo das coisas. Passou a tentar adivinhar como é que as coisas chegariam a ser o que ele já sabia que elas se tornariam. Percebeu o quão pouco importam o começo e o final: o barato está, pensou ele, em como é que uma coisa vai dar na outra. Fez novos amigos, conheceu mulheres, se apaixonou algumas vezes. E a história poderia acabar aqui, com nosso protagonista aprendendo a viver um dia de cada vez, encarando com tranquilidade a finitude das coisas. Mas não foi bem assim, como sabemos.

Certo dia, numa praça, viu uma mulher linda e resolveu puxar conversa. E disse "Opa", como quem diz "Oi". E parou por aí, espantado. Porque não viu final nenhum. Ficou aflito. "Que é que houve?", disse ela. "Não tem final", disse ele. "O quê?", disse ela. "Nossa história", disse ele. "Não tem final." "Mas precisa ter?", disse ela. "Não, não precisa", disse ele. "Não precisa."

E eles viveram felizes para sempre. Seja lá quando isso for.

Gregorio Duvivier


sábado, 28 de setembro de 2013

A 4m1z@de dos sonhos no mundo real

Quantas vezes havia sonhado a respeito disso ela não sabia. Não lembrava quantas vezes desejou ser chamada de amiga, da boca pra dentro. Ia pra festas, bares, reuniões na calçada; dividia um cigarro mas não deixava ninguém de fato tocar sua alma. Ela sabia que de companhia pra o que não prestava a vida não lhe privava, mas era de um amigo que sentia falta. Farta de tantas vozes, se calava, porque mesmo quando ousava mostrar alguma coisa sua, era sua máscara. No fundo sentia mais falta era de si mesma...

Pensava que no mundo deviam existir outras pessoas como ela, mas a pergunta era: como encontrá-las? Se existia a chamada lei da atração elas deveriam estar por perto... Tentava ficar alerta, mas só se frustrava.

Os novos tempos vieram, com outro conceito de realidade. Agora, podia falar muito – e muito profundo – com alguém sem nem olhar na cara! Era um novo mundo de possibilidades resgatando sua esperança: a internet, a globalização computadorizada.

Nem precisou se apressar, as redes a pescaram. A tal lei ia se concretizando abstratamente em conversas não-faladas, e as almas foram se conectando sem as peles precisarem ser tocadas. Alegria era o toque de uma mensagem recebida. Tornou-se sua música preferida. Quantas confidências desabafadas em siglas...

Foi se descobrindo unida mesmo em terras separadas. Foi percebendo que poderia ter uma noite muito mais divertida ficando em casa. Acabou conquistando através de teclas e telas a essência de uma verdadeira amizade: uma relação baseada na sinceridade.

Entendeu, por fim, que pela tela podia tê-la pra sempre. E que a tela podia ser (ou não) temporária. Como uma ponte entre duas margens de terra...


Camila Sousa de Almeida


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