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Aracaju, Sergipe, Brazil
Sou uma terapeuta ericksoniana; trabalho com Psicoterapia Breve, utilizando, sob medida para cada pessoa, técnicas de Hipnose e Arteterapia. Sou também doula: acompanho gestantes durante o pré-natal, parto e pós-parto. Qualquer dúvida e interesse, entre em contato! Terei o maior prazer em poder ajudar. :)
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quarta-feira, 11 de junho de 2014

Até o céu!



Helena sentia uma coisa estranha toda vez que colocava sua filha no peito. Chamou isso de angústia e me chamou para perguntar: 

- É normal?

- Helena, é normal o peito apertar quando está cheio. E cheio ele fica quando se guarda as coisas só lá dentro. Sem esvaziar, sem compartilhar...

Os olhos de Helena ficavam molhados, mas não transbordavam, enquanto me ouvia falar. Disse a ela: 

 - Até o céu às vezes não chora?! E, quando ele chora, as plantas ficam verdinhas e felizinhas... É preciso deixar a água cair pra vida continuar.

Helena, espertinha, completou o raciocínio que estava a traçar: 

- É mesmo, até as plantas choram! Pra renascer a vida...


 Camila Sousa de Almeida




quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Ando devagar porque já tive pressa





 

A paciência é a virtude que restabelece os ligamentos. É aquela que nos permite ter movimentos. Com paciência, a dor é menos. A gente encontra livros, recebe amigos, e lembra de beber água. Paciência tira belas fotos! De paisagens simples, cotidianas. Ela vai nos mostrando a natureza inserida na paisagem urbana. Paz, ciência, e tudo pode ir ficando melhor do que antes. Pacientemente, a gente faz ou deixa de fazer, ficando em paz na companhia só da gente.

Camila Sousa de Almeida



quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Dai-me o teu amor, que já é meu



Era um encontro transcendental entres as partes que os levavam a eles mesmos. Haviam se fundido e se cindido logo que se deu a invenção de seus corpos, por isso os desencontros passaram a acontecer frequentemente, apesar de tão próximos.

Nada mais seria da mesma forma, intacto apenas o conteúdo. Riam juntos, choravam juntos, iam embora supostamente se separando mas, fatalmente unidos, sempre voltavam de onde tinham parado como se o tempo não tivesse existido. Explicação nenhuma isso requer. O fato é que era consenso o com-sentimento entre as partes. Mas era difícil porque juntava o não saber como fazer com o sem conseguir provar...

Nasceram, cresceram, encontraram outros, trocaram o carinho pelo carinho dos outros e depois trocaram e foram trocados por outros. Entre eles mesmos não trocaram beijos, não tocaram os corpos, mas o coração batia mais forte do que o mais forte que já havia batido... Um bater sem dor, mas que doía... Ardia, mesmo sem arder...

Ele até chegou a correr atrás, sem correr... Ela, sem saber, sabia... Tão estranho era aquela intimidade toda, que não se encontrava em nome algum. Só no dicionário celestial dos que verdadeiramente amam. Porque pra amar não precisa de contrato nem de falta de medo. Sendo assim, estavam livres. Para amarem-se e aceitarem-se na saúde e na doença; na riqueza e na pobreza; até que a morte os una completamente... Ou a vida não espere pela morte.


Camila Sousa de Almeida

domingo, 27 de outubro de 2013

Reflexões de um botão

Era um peixe. Era, de fato, uma vontade de nadar. Mas ele voava no ar, sobre as coisas da terra. Não havia espaço onde ele não pudesse ir, afinal era livre da necessidade de líquidos para fluir. Tudo isso fazia um grande sentido, apesar de esdrúxulo e inigualável no mundo das espécies aquáticas, que era o mundo dos terráqueos. Todo mundo no mundo sabe nadar, e quando não sabe, nada. Nada mesmo. Nenhuma invenção humana superaria tamanha patacoada que a de um peixe que não nadava na água.

Camila Sousa de Almeida

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Eis o ser humano





No coração tece o sentir,
Na cabeça luze o pensar,
Nos membros vigora o querer.

Luzir que tece,
Tecer que vigora,
Vigorar que luze:
Eis o ser humano.



Rudolf Steiner

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Silenciando



Um guarda-roupa entreaberto, um par de sapatos no meio do quarto; denunciando a preguiça de quem chegou à noite em casa depois de todo um dia de trabalho. E o silêncio. O silêncio de quem não quer ligar a TV nem ouvir música. O silêncio de quem ouve o som dos carros passando na rua. Aquele silêncio de quem se pergunta: onde eu perdi isso? Na adolescência, na melancolia finda? Uma cama se torna mais macia quando aproveitamos ainda acordados. Quando sinto, é pra mim que tudo isso existe. É que a gente escuta melhor muita coisa no silêncio de uma luminária...


Camila Sousa de Almeida

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Bela-prima

A prima Vera era bela. Nossa, como ela era! Toda vez que eu a via, enfeitada de flores até nos pés, eu sorria. Porque sua voz era como carinho de brisa e passear com ela despenteava os cabelos, e eu adorava isso. Estar com ela era, mais do que “estar são”, como uma nova Era.

Mas ela só vinha de tempos em tempos, sempre na mesma época. Então eu bolei um plano para tê-la pra sempre: uma coisa minha que guardava eu iria lhe dar. Então ela veio, como sempre. Minto, veio diferente; melhor do que antes e pior do que seria. E como planejado, meu presente eu lhe dei: um beijo dado como o orvalho às folhas-meninas.

Mas primeiro senti seu cheiro perfumado e toquei seus cabelos de fios dourados. Olhei profundo em seus olhos e vi lá dentro meu presente sendo desejado. Assim eu nunca tinha olhado. Só quando olhei que vi que olhava assim pra mim...

Depois que meus lábios nos seus lábios rosa tocaram, eu pude sentir o coração tranquilo e acelerado. Mas como pode tão diferentes e juntos em vez de separados? A resposta veio com o número de luas exato. Prima Vera foi embora sem nunca mais ir embora de verdade. No sol ou na chuva, comigo estava, porque no meu coração fez um milagre...

Agora fico imaginando se, como eu a vi, outros verão...


Camila Sousa de Almeida

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Não sabia que sabia ser sábia


Houve um tempo em que Lucile achava que não sabia o que queria. Andava por aí com seu diário, onde fazia anotações sobre outras meninas, sobre o que achava delas e o que elas achavam dela. Eram coisas difíceis de dizer. Ao menos, escrevia. Pensava às vezes em francês, dizendo para si mesma, com seu rótulo de desastrada, “c’est la vie”. A vida era para ser aceita, tal como era dada, porque tinha aprendido isso desde cedo em alguma cartilha socializada. Mas o tempo é mensageiro e fez Lucile perceber que suas dúvidas também podiam ser caminho: descobriu a profissão de pesquisador, aquela que toda criança já nascia especializada. Tal descoberta a fez levar a sério seu diário, tão sério que anotava até piada! Achou que um dia tudo aquilo serviria de material importante para a evolução da humanidade. Estava certa e errada. Não sabia ela, ainda, que um dia seria muito pouco... Muito pouco para o monte de dias que ela transformaria todas aquelas experiências em sabedoria para ajudar os outros. Ela só não sabia que sabia, desde sempre, o que queria. Pesquisando a si mesma, suas potencialidades, foi evoluindo e se tornando muito mais humana, aceitando a vida como era... Com uma flor sorrindo pra ela em cada tropeçada... 

Camila Sousa de Almeida

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O princípio do segundo que foi o primeiro

Mal tinha começado a escrever e já começou a crescer: fazia do papel a própria poesia. Mas escrevia gaguejando; soltava versos sozinhos e, com medo da solidão, não ia adiante com nenhum deles. Foi quando num dia, noturnamente, abriu uma página debaixo do telhado de brilhantes e enxergou lá dentro uma palavra única e cintilante: "universo", dizia em letras pequenas, mas gigantes. Soou como um gritante cochicho em seus ouvidos infantes. Uma palavra só trazendo sentido para muitas e, não-verbalmente, uniu os versos que tinha soltos e com eles formou algo muito mais crescido do que o que tinha acrescido. Foi assim que, num primeiro segundo incontável pelo tempo, descobriu o poder dos so(l)zinhos...


Camila Sousa de Almeida


quarta-feira, 12 de junho de 2013

A flor da pele

Era “o dia dos namorados”. Era um dia. Mais um em que Alícia esperava aquele som que não vinha. Nunca tinha ouvido “eu te amo” da boca de um rapaz. Nem mesmo de uma moça que não fosse amiga. Não que ela quisesse ouvir isso de uma moça, mas que ela queria ouvir, queria! Foi para o parque chateada, pensando quanto tempo já estava saindo com Alesandro e ele não lhe dizia nada. Nada além da hora que iria buscá-la... Estava sem esperanças no mundo, pois este era feito de pessoas que não falavam o que ela esperava ouvir. Alícia caminhava e chorava... Foi quando uma flor, roxinha como a cor que fica quando estamos sarando de um machucado, surgiu diante de seus olhos molhados. Enxergou profundo. Enxugou suas lágrimas e desobstruiu as passagens: Alícia pôde sentir o aroma doce da singela e miúda roxinha cheia de pétalas. Era sensivelmente suave e se espalhava no ar da praça, enquanto ela inspirava... Alícia chegou mais perto para ver melhor e tocou a flor, que se deixou ser tocada. Parecia feliz com os carinhos, pois continuava partilhando seu perfume, e isso a animava.  Suas cores eram tão sinceras quanto suas folhas recém-caídas. Ela só sabia ser ela mesma, tão bonitinha. Alícia permitiu-se a companhia dela o resto daquele dia. E junto com a noite caiu a ficha: descobriu-se amada pela flor. E isso era certo, tão certo quanto a raiz da planta firmada na terra. Alícia nunca fez nada por ela. A flor simplesmente estava ali, entregue, de corpo, cor e essência, doando a si mesma, sem nada esperar... E o único som audível era o vento fazendo a planta balançar...

Camila Sousa de Almeida

domingo, 23 de dezembro de 2012

No ponto da calçada





Uma mulher passa e tropeça numa pedra. 


Sem parar, olha pra trás chateada com ela. 

Continua o caminho. 

A mulher que vem atrás também olha mas, diferentemente, tira a pedra da passagem. 


Topou com a pedra sem levar topada, e ainda garantiu que ninguém mais tropeçasse, por aquele motivo, naquela calçada. 

Ambas calçadas...

Camila Sousa de Almeida




sábado, 15 de dezembro de 2012

Entre


No mistério do sem-fim 
equilibra-se um planeta. 

E, no planeta, um jardim, 
e, no jardim, um canteiro; 
no canteiro uma violeta, 
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim, 
a asa de uma borboleta


Cecília Meireles


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

No meio do caminho não tinha uma pedra



 
Na época de Drummond tinha uma pedra no meio do caminho. Hoje, quando caminho, encontro buracos. Muitos, por todos os lados! Passo por uma banca de revistas e vejo uma manchete de jornal: “Pai estupra filha em pleno dia das crianças!” Como?! Quer dizer que se fosse outro dia do ano seria menos absurdo??? Como diz um velho amigo, é uma falta de absurdo... Antes a pedra do que a falta dela, ou seja, o buraco. 

Por que somos bons atletas quando se trata de fugir do esforço? Ficamos acomodados quando temos à disposição um carro; esquecemos que temos pernas! Elas existem, e se existem, não é por acaso. E não é porque sejam vingativas não, mas se não lembrarmos muito delas, elas também nos esquecerão; com razão de não fazer questão de serem boas na hora que a gente precisar de uma forcinha. Beber ou comer algo estragado nos faz passar mal, mas vômito não é castigo; é a natureza seguindo sua ordem em busca da natural harmonia.

Nesse trecho de menos de meia hora de caminhada senti que é muito menos arriscado não desviar do catador de lixo bêbado do que do estranho engravatado. Porque, como concluiu meu primo em sua sabedoria, é melhor ter certeza de uma verdade feia, é melhor uma sincera futilidade... Perigoso é não saber. Pior é a incerteza do que o outro pensa e quer de você.

A falta, o escondido, o comodismo e outras barbaridades modernas são reflexos de alguma coisa que estamos chamando de sociedade. Na realidade o que parece é que nos tornamos sócios falidos de uma catástrofe natural encomendada. Mas, felizmente, pernas também fazem pensar. As danadinhas sempre nos levam a algum lugar...

Camila Sousa de Almeida

sábado, 29 de setembro de 2012

Uma viagem



Impedidos de entrar em bando, escaparam pra dentro feito um assalto. Não falaram nada que não fosse por gestos: “você ali, ele lá, aquele acolá”. Parecia uma banda de música nova dando suas coordenadas. 

Criaram o ambiente propício, sem cotoveladas, e foram pra ponta da varanda, onde se via a lua... dentro, mas fora. 

Aplaudiram a si mesmos com entusiasmo e fizeram festa em dia de semana. Não eram mais do que eles mesmos. Estavam sós, naquilo que alguns chamavam de inteiro, mas por serem pacíficos, trocavam brigas por beijos. 

Quem eram eles? Os elementos de um cesta sem feira; partes de sua mente. Consciente e inconsciente: uma mente perfeita. 

Camila Sousa de Almeida
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