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Aracaju, Sergipe, Brazil
Sou uma terapeuta ericksoniana; trabalho com Psicoterapia Breve, utilizando, sob medida para cada pessoa, técnicas de Hipnose e Arteterapia. Sou também doula: acompanho gestantes durante o pré-natal, parto e pós-parto. Qualquer dúvida e interesse, entre em contato! Terei o maior prazer em poder ajudar. :)

terça-feira, 6 de maio de 2014

Pode ser





Lembro de um dia, quando era criança, que estava sentindo algo que nunca havia sentido antes. Questionei minha mãe como era “dor de cabeça”, na tentativa de descobrir um jeito de nomear aquilo. Apesar da explicação recebida, continuei na dúvida. Afinal, conceitos são feitos de palavras mais ou menos difíceis e não de sensações pessoais precisas. Como poderia saber se o que eu estava sentindo correspondia àquelas palavras que ela me dizia? Era muito duvidoso... Mas para quem está conhecendo o mundo tudo precisa ser batizado, então resolvi que, naquele momento, era a famigerada “dor de cabeça” que eu tinha. Mas eu sabia que aquela era apenas uma possibilidade...
Camila Sousa de Almeida

domingo, 2 de março de 2014

A menina e o pássaro encantado

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
Tenho de ir dizia.
Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
Eu também terei saudades dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
Que bom pensava ela o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

As mais belas histórias de Rubem Alves
Lisboa, Edições Asa, 2003

sábado, 1 de março de 2014

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Ando devagar porque já tive pressa





 

A paciência é a virtude que restabelece os ligamentos. É aquela que nos permite ter movimentos. Com paciência, a dor é menos. A gente encontra livros, recebe amigos, e lembra de beber água. Paciência tira belas fotos! De paisagens simples, cotidianas. Ela vai nos mostrando a natureza inserida na paisagem urbana. Paz, ciência, e tudo pode ir ficando melhor do que antes. Pacientemente, a gente faz ou deixa de fazer, ficando em paz na companhia só da gente.

Camila Sousa de Almeida



segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Quem está rindo?



A criança aprende “as verdades” sobre o mundo e sobre si mesma com os exemplos vivos, vividos e presenciados. Um potencializador de aprendizados infantis é a brincadeira, que não é apenas coisa de criança, mas também de ex-crianças, que continuam crescendo... É na espontaneidade de uma piada que as crenças sobre o mundo são transmitidas e perpetuadas.

No trânsito, se alguém comete um ato considerado burro ou desajeitado, o pai faz o comentário “é mulher!”. E isso não acontece uma, nem duas, nem três vezes... Sobre homens isso nunca é dito. 

Se a empregada não acerta fazer direito a comida ou lavar a roupa adequadamente é motivo de chacota, pois “não se faz mais mulher como antigamente” ou senão “você não é mulher não?!”. 
 
Se os preços dos alimentos no supermercado aumentam constantemente e é necessário pagar mais pelo mesmo de sempre, isso não tem nada a ver com o sistema ou o governo, é porque “mulher gasta muito e adora pegar mais dinheiro”.

Claro, não se fala isso sério, apenas se leva com bom humor as diferenças culturais entre os gêneros. Não importa se alguém está se magoando ao ser constantemente depreciado, o que importa é não perder a piada! Que nem os meninos na escola que se divertem chamando os outros de “quatro-olhos” ou “rolha-de-poço”, não é?! Pois é, mulheres de todas as idades estão sofrendo todos os dias o que se chama de bullying. Porque, pra quem faz, não é violência. Só pra quem está fazendo mesmo...

Se pra você que está lendo serviu a carapuça, de que adianta pagar terapia para sua filha ou esposa, ou quem sabe ser o próprio terapeuta, querendo melhorar a baixa autoestima de suas clientes, se na rua e em casa você está brincando de depreciar as mulheres da sua vida?

Felizmente, mulheres crescem e podem deixar de acreditar em mentiras.

Camila Sousa de Almeida


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Esperando ter razão

Um garoto chega da escola temendo ter de encarar o dever de casa. E repete: "Meu dever de casa vai ser difícil. Não vou conseguir fazer."
A mãe pergunta: "Como você pode saber se ainda nem começou?"
O menino explica que quando a professora passou o dever, ela alertou a turma: "Não esperem para fazer o dever de casa no domingo. Façam no sábado. É uma tarefa difícil e a última turma não se saiu muito bem. Então se planejem para dedicar um bom tempo e trabalhar duro, pois será necessário."
A mãe do garoto imediatamente compreendeu que a professora havia influenciado seu filho de uma forma negativa, levando-o a esperar ter dificuldades para realizar o dever de casa.
Ela também compreendeu que provavelmente o dever não era tão difícil quanto o filho imaginava e que poderia facilmente influenciá-lo a mudar suas expectativas e torná-las mais positivas. Ela disse ao menino: "Para mim você vai resolver essa tarefa com muita facilidade. Você é bom em assimilar novas informações e em lembrar o que aprendeu. Meu palpite é que logo, logo você vai ter terminado o dever e vai aparecer aqui dizendo que foi facílimo."
É claro que o garoto abriu o maior sorriso e foi começar o dever de casa. Pouco tempo depois, voltou radiante. "Puxa", disse ele "você tinha razão, mãe. Da próxima vez que alguém tentar me convencer que não posso fazer algo, vou lembrar-me do que você disse sobre a minha capacidade de assimilar novas informações e vou dizer a mim mesmo que você tinha razão."

Autor desconhecido




quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Dai-me o teu amor, que já é meu



Era um encontro transcendental entres as partes que os levavam a eles mesmos. Haviam se fundido e se cindido logo que se deu a invenção de seus corpos, por isso os desencontros passaram a acontecer frequentemente, apesar de tão próximos.

Nada mais seria da mesma forma, intacto apenas o conteúdo. Riam juntos, choravam juntos, iam embora supostamente se separando mas, fatalmente unidos, sempre voltavam de onde tinham parado como se o tempo não tivesse existido. Explicação nenhuma isso requer. O fato é que era consenso o com-sentimento entre as partes. Mas era difícil porque juntava o não saber como fazer com o sem conseguir provar...

Nasceram, cresceram, encontraram outros, trocaram o carinho pelo carinho dos outros e depois trocaram e foram trocados por outros. Entre eles mesmos não trocaram beijos, não tocaram os corpos, mas o coração batia mais forte do que o mais forte que já havia batido... Um bater sem dor, mas que doía... Ardia, mesmo sem arder...

Ele até chegou a correr atrás, sem correr... Ela, sem saber, sabia... Tão estranho era aquela intimidade toda, que não se encontrava em nome algum. Só no dicionário celestial dos que verdadeiramente amam. Porque pra amar não precisa de contrato nem de falta de medo. Sendo assim, estavam livres. Para amarem-se e aceitarem-se na saúde e na doença; na riqueza e na pobreza; até que a morte os una completamente... Ou a vida não espere pela morte.


Camila Sousa de Almeida

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Adapta a ação



Quando a gente cai e se machuca percebe que tem partes de nós mais frágeis do que pensamos. E partes mais fortes ainda. Por exemplo: uma perna que não aguenta uma pancada e outra que aguenta fazer tudo pelas duas. Que ironia! A gente percebe, quando sai da nossa vida rotineira, como é a vida do outro que tem essas dificuldades como rotina. Percebe que é muito bom poder buscar um copo d’água sozinha. E esse é um prazer que não aproveita quem só quer aproveitar a preguiça. Adaptação é uma delícia. É poder tomar banho sentada embaixo do chuveiro e lembrar da sensação do banho de cachoeira... Se brincar, vicia.


Camila Sousa de Almeida

sábado, 16 de novembro de 2013

O centro

Não importa quanto barulho o mundo faça ao seu redor, só é capaz de lhe perturbar o que te inquieta por dentro. Também por isso não adianta o silêncio de uma tarde calma, esteja onde estiver... Não é um sítio longe da cidade nem uma TV desligada. Não é algo que você compre, nem que renuncie. Não é a cor da roupa que veste, nem os zeros na conta bancária. Eles podem estar na direita ou na esquerda... O que importa é o centro. Quando achar, você vai saber e reconhecer... 

Camila Sousa de Almeida


domingo, 3 de novembro de 2013

Qual idade de vida

Foi engraçado, hoje me vi adulta quando me peguei tomando cafezinho. Principalmente porque o tinha desejado. Quando pequena só via fazer isso gente grande... Mas fico feliz por minha criança porque, mesmo depois de ter crescido, não me obrigo a usar terno e gravata nem salto alto, e nem desejo nada disso. Fico feliz por ter preservado, diferente de muita gente, uma ótima vista. Não porque não uso óculos, mas porque enxerguei os passarinhos andando em cima dos carros. E porque achei isso “massa” e lindo. A minha criança agradece eu ter saído do ambiente fechado do trabalho pra tentar ver o eclipse. E sente prazer com o friozinho do tempo nublado, em paradoxo com o fato de não fazer questão de ar-condicionado. Minha criança se orgulha de escolher como meio de transporte a bicicleta. Ela se diverte, se fortalece e se exercita. Gosta de escrever tentando rimar, pra fazer poesia. Com isso concluo que, felizmente, minha criança não só aqui dentro vive; mas está ajudando o meu adulto a ter qualidade de vida.


Camila Sousa de Almeida


sábado, 2 de novembro de 2013

Os bichinhos

Marília tinha nascido no meio dos bichos. Convivia com gato, cachorro, papagaio, periquito. E quanto mais andava pelo seu quintal infinito, mais encontrava outros amigos: os voadores, os saltitantes, os nadadores... Todos absolutamente livres. As espécies conviviam numa harmonia que, para Marília, era tão natural quanto ela.

Quando foi viver na selva de pedra, estranhou muita coisa: água engarrafada e lacrada, fruta pegada de prateleira, cachorro vendido em loja, o povo correndo da chuva, e não com ela... Era tanta coisa diferente que ela nem sabia como chamar.

Já o povo sabia chamar Marília de muita coisa. Mas quando diziam que ela era um bicho-do-mato, ela sorria saudosa. Quando riam dos seus pés descalços, ela pensava que devia ser aquilo uma pessoa chamada de invejosa. Toda aquela malícia dos homens das pedras só a pureza da mata conseguia matar.

E como uma floresta que se multiplica pelas sementes que caem na terra, a fértil Marília pegou-se a engravidar. Gestando em seu ventre uma nova existência cor de verde-esperança, ela naturalmente deu à luz em meio às águas limpas que ainda restavam naquele lugar.

Não tardou a tentarem mais uma vez desmatar seu peito: “seu filho parece um macaco!”. Marília, sábia como as folhas de uma árvore que transformam o que vem de fora em algo que lhe é útil, ficou muito alegre com um comentário tão divino! Serena e orgulhosa, ficou lembrando do quanto admirava aqueles bichos...

Camila Sousa de Almeida


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